Recém saída do banho, pego as peças de pijama penduradas atrás da porta do banheiro. Me curvo para colocar minhas calças, ainda com o torso nu, quando, de repente, a criança a minha frente exclama espantada:
— MÃÃÃEE, VOCÊ É UM DINOSSAUROOO?????
Eu, que sou o tipo de mãe que perde o filho mas não a piada, entro na brincadeira (que pra ela não era nada engraçada), mantenho as costas curvadas e digo, numa voz rouca pseudo maléfica:
— HA HA HAAA! Você descobriu meu segreeeedo!
— Para mãe! Não tem graça!
— Sim, me desculpe. Mas por que você achou que eu era um dinossauro?
— Porque você tem uns espinhos nas costas!!
E foi assim que a criança descobriu uma nova parte do corpo: a coluna vertebral.
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“Durante a gravidez, células são trocadas entre a mãe e o feto pela placenta. Quando o bebê nasce, algumas dessas células permanecem intactas no corpo da mãe. Por décadas. Talvez para sempre. O fenômeno é chamado de microquimerismo. Essa troca cria o que a renomada geneticista dra. Diana Bianchi chama de uma “conexão permanente que contribui para a sobrevivência de ambos os indivíduos”. Essas células também foram encontradas em irmãos nascidos posteriormente. Se você tem irmãos ou irmãs mais novos, é possível que algumas de suas células estejam dentro deles; se forem mais velhos, as células deles podem estar em você. Células maternas também permanecem na criança.”
Lucy Jones em Matrescência, p. 65. (tradução de Vanessa Barbara)
Eu li isso em uma madrugada enquanto embalava meu filho mais novo e me marcou de certa forma. Eu, filha mais velha, carrego parte da minha mãe dentro de mim. Literalmente. Ela também, filha mais velha, carregou em seu ventre não só eu, como minha filha – já que uma mulher grávida de uma menina carrega também os óvulos dentro do útero da bebê. Minha filha também é primogênita. Carregamos o passado e o futuro dentro de nós. E nos espalhamos em nossos irmãos.
Faço parte dessa linhagem de mulheres gerando mulheres e carregando umas às outras dentro do próprio corpo.
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– Mãe, meu tataratataratataratataratataratataravô era um macaco?
– Não, foi muito antes disso.
– Então meu tataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataratataravô?
– Ainda não…
– Meu tataratataratataratataratataratatara…
Me siga para mais dicas de como distrair uma criança em seu próprio raciocínio e ganhar cinco minutos para tomar seu café em paz.
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Hoje apago 36 velinhas, apesar de no meu bolo constar apenas duas – uma verde e uma rosa – resquícios do aniversário do ano passado com temática unicórnio. Da criança, claro.
Escrevo velinhas e meu celular corrige para velhinhas, o que não deixa de ser verdade. Hoje estou mais velha que ontem. Mas ontem fui confundida com um dinossauro, por isso sinto que estou rejuvenescendo de certa maneira. Afinal, velhinha me parece mais simpática, menos enrugada e encurvada que um dinossauro. Velho como um dinossauro seria meu tataratataratataratataratataratataratataravô.
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Para onde este texto está indo? Eu não tenho a menor ideia.



Feliz volta ao sol!
E feliz vida, feliz novo ciclo Munike, que seja repleto de momentos dinossauro ♥️