Lembro como se fosse ontem, 18 de novembro, em torno das onze da manhã. Sentei no banco coberto de gotículas congeladas, de frente para um grande campo, e abri meu livro no capítulo sete. O bebê finalmente dormira no carrinho (coisa rara) depois de uma longa caminhada. Aproveitei a temperatura agradável de -4°C para colocar minha leitura (e vitamina D) em dia.
“Temperatura AGRADÁVEL de MENOS QUATRO GRAUS??”, exclamam minhas amigas em quatro cantos diferentes do mundo, nenhum deles tão ao Norte quanto onde me encontro.
Agradável, sim, pois sobre minha cabeça brilhava aquela coisa amarelada que irradia luz, torna o céu azul anil e, se você olhar diretamente, te faz piscar feito criança com sono.
Sono. É isso que venho sentindo com mais frequência desde aquele 18 de novembro. Poderia culpar dez meses de noites mal dormidas, afinal amamento um bebê que acorda a cada duas horas, mas não é bem esse tipo de sono. Comentei inclusive com a enfermeira, “ando sentindo um cansaço fora do comum”, ao que ela respondeu “reponha suas vitaminas”, coisa que faço desde que me mudei pras bandas de cá.
Era novembro, veja só, de 2021, e meu primeiro choque não foi o frio, tampouco os dias curtos. Ainda que menos intenso, já vivia isso na Itália. Mas ver as pessoas paradas no meio da rua como se fossem postes debaixo do sol me fez rir com certo deboche. “Gente esquisita, parece que nunca viu sol na vida”.
Pois bem. Sabe aquela história de cuspir para cima? Nesse caso ele não só caiu na minha testa como escorreu por toda a minha cara. Ou talvez você prefira a clássica “a gente só dá valor quando perde”, etc.
Me ponho a pensar: será mesmo uma troca justa deixar de correr o risco de ser assaltado em plena LUZ DO DIA para ter trinta minutos de sol em um mês?
Trinta. Minutos.
Meia hora.
De sol
Em
Um
Mês.
E, provavelmente, eu estava fazendo meu filho dormir no quarto escuro quando essa caralha de sol resolveu aparecer e eu perdi a chance de lagartear em dezembro.
Quando digo que moro na Suécia, a primeira coisa que perguntam é se o chocolate é bom. “SuÉcia”. A segunda coisa que perguntam é onde fica. A terceira coisa que perguntam é: como você aguenta o frio?
Botas impermeáveis apeluciadas, meias de lã, gorro, luvas grossas, blusas, jaquetas pesadas. Aplicar a filosofia Shrekiana das cebolas e se vestir em camadas. Não existe tempo ruim, apenas roupa inapropriada. Com o tempo a gente acostuma, acerta e -4°C vira uma temperatura agradável para se estar na rua com seu livro, seu cachorro, seu bebê, seu café. Sobretudo quando neva.
Os flocos brancos acumulados refletem luz e iluminam o breve dia, que dura das nove às duas da tarde. Mas a neve tem sido cada ano mais escassa e, aqui onde moro, o sol não aparece desde aquele 18 de novembro.
Lidar com a escuridão, isso sim é o mais difícil. Especialmente quando não neva. Especialmente quando tudo o que se vê no céu são nuvens cinzas sem nenhum contraste.
Especialmente quando você não tem pra onde escapar do mês mais escuro desde 1934.
Aquele 18 de novembro me parece mais distante do que de fato está. Um mês sem luz aparenta ser um ano inteiro. Como pode um dia tão curto parecer tão…
longo?
A louça acumula na pia. A gente perde a noção das horas pois a paisagem carrega sempre a mesma cor fosca. Uma vontade de virar casulo. Uma fome constante contrariando a disposição de cozinhar qualquer coisa que seja. Meu único desejo é me esbaldar em café — bem assim como a palavra sugere, um balde de cafeína até meu estômago gritar que não é disso que precisa. Tampouco me falta vitamina. Meu corpo anseia por luz.
Meu cérebro coloca pra tocar aquela música do Papas da Língua: “soool volte a brilhar, só mais um pouco pra eu não chorar, sozinho num canto…”, e eu tenho duas certezas: 1. quem a compôs estava de férias em Estocolmo em pleno dezembro. 2. Não tem jeito de eu gostar dessa banda.
Saio de casa pra pegar um ar.
Outro dia uma simpática nuvem resolveu se mexer e vi a cor do céu por cinco minutos. É mesmo azul. Meus olhos arderam e logo aquele buraquinho de esperança se tornou cinza de novo.
Aos três anos, minha filha gritava indignada na rua enquanto olhava pro céu de dezembro, “ô sooool, cadê vocêêê???”. Ao notar que isso não causou efeito algum, agora ela tenta outra estratégia: desenhar o sol toda vez que pega um pincel na mão (ou seja, quase todo dia). A gente pendura suas aquarelas na geladeira, nas paredes de casa, na janela, como uma espécie de desejo ao universo, prece, mandinga, chame como preferir.
Ontem, ao voltar da escolinha, as nuvens cinzentas dançaram. Uma linha rosada apareceu no horizonte. Saímos correndo como goblins suicidas na direção daquela luz. Meu marido, que pedalava na rua, me mandou um áudio gritando entusiasmado “DÁ PRA VER O CÉÉÉÉU!!!”, parecendo um torcedor de futebol em final decisiva (e ele mal entende do esporte).
Minha filha de quatro anos disse, com a maior naturalidade: “é a Lia, mamãe. Ela está soprando as nuvens. Essas cores no céu são da magia dos unicórnios”. Ela então apontou para a calçada cinza com cor de concreto (tal qual a paisagem nesse último mês) e continuou: “tá vendo o arco-íris refletindo aqui, mãe? Olha só, quantos regnbåge1!”.
Só vejo regn2, não vejo båge3 nenhum.
Com tanto tempo sem ver a cor do sol, eu também estou a ponto de alucinar. Espero que a tal unicórnia Lia tenha bastante fôlego para nos trazer a luz de volta porque tá osso, viu, viver nesse outono estilo 1934. Putaquepariu.
Mas há esperança, há sim! É o que dizem as previsões meteorológicas — que geralmente falham nas bandas de cá. O celular mostra um sol tímido enquanto, na janela, as gotículas de água disputam corrida. Mas, para amanhã, vejo a promessa de uma bola amarelada cercada de risquinhos.
Sigo na expectativa.
Para ler a parte I:
Arcoíris, em sueco.
Chuva, em sueco.
Arco, em sueco.











Amo a criatividade da sua filha!! Ela sempre aparece na newsletter com as melhores explicações pra tudo 😀
Moro na Holanda e me identifiquei demais com esse texto.
Penso nisso aqui mais do que eu gostaria: "Me ponho a pensar: será mesmo uma troca justa deixar de correr o risco de ser assaltado em plena LUZ DO DIA para ter trinta minutos de sol em um mês?"
Eu sempre digo que com o frio a gente se acostuma, mas com a falta de sol não dá. Esperando ansiosa pela primavera.